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Quarta-feira, 19.11.14

Da Capital para a Serra

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O “Correio” largou sete minutos depois da tabela, conhecedor como está de que aqueles que lhe utilizam as passagens têm de deixar as coisas arrumadas e recorrem às noites por que os dias lhes fazem contar as horas como os estenógrafos contam os minutos pelos relógios de areia.

A Capital ficara no turbilhão dos milhões de casos e milhares de problemas que a supercivilização criou ou que a habilidade dos homens esculpiu na sua existência, acicatados os egoísmos exagerados sem olhar para a Moral que dá às virtudes de abnegação e altruísmo o realce do que pela grandeza de sentimentos se impõe por si próprio.

O “Correio” com ou sem motorização Diesel, não sente a febril actividade que acelera de mais em mais o ritmo dos negócios, a angustia dos que se estorcem na Dor ou diluem a mágoa no seio embaciado do íntimo, a preocupação desnatural ou frívola do ócio que busca no espaço a maneira de matar o tempo do dia seguinte, - e transporta com a mesma gelada indiferença as gentes que pelo Natal se aconchegam à Família com alvoroço, revivendo a tradição e o convívio dos que lhes rodearam o berço de afectos sem fantasias...

Assim, o “Correio” parou na Estação Velha como parara em tantas outras. Àquelas horas da madrugada Coimbra dormia o sono solto, sem serenatas no Choupal nem esturdias em Santa Clara.

Os primeiros rumores da faina que vai começar são dados pela camionagem que pela Estrada da Beira alcança a Serra, por S. Romão.

Manhã clara, da Serra de S. Pedro Dias os passageiros procuram com ansiedade nos horizontes do Nordeste as primeiras claridades das neves que coroam as cumeadas da grande montanha portuguesa. Em baixo o Alva está submerso na névoa espessa que cobre o fundo do vale. A subida começa a desenvolver-se entre pinheiros escorrendo gotas de água semelhando cristais límpidos, aproxima-nos cada vez mais dos contornos da serrania hermínica e o Mont’Alto mal obscurece a visão da sua capela a meio da cordilheira.

O avanço para a região das grandes altitudes põe nota de viva curiosidade na lotação da camioneta. O Colcorinho está oculto pela bruma cinzenta que em pedaços vai deslizando até à Senhora das Preces. Uma réstia furtiva de sol, como um alento que renasce sob o domínio das torres altivas de Sant’Ana, esbate Oliveira do Hospital cobrindo-lhe de doce luz os telhados umedecidos pela geada. Mas o tempo de Inverno não esmorece as almas rústicas, que na sua simplicidade se aproximam bem da modéstia em que quis nascer o Rei dos Reis. Os presépios das aldeias refletem bem o triunfo sem ruido da humildade.

Frente à Montanha, no trilho que disfruta a paisagem sobre o Alva, novamente à vista, a poesia da neve impele já a sensibilidade:

 

E cândida também, a branca, a linda neve

Por sobre a Serra alveja além, mui ao de leve...

A neve!... A neve!... Como ela se vê brilhar!...

Ó neve! Ó neve! Quero em teu seio sonhar...

 

In “A Serra da Estrela e o Herminismo em Pleno Desenvolvimento”, de Francisco Mendes Póvoas, Torroselo, Janeiro de 1957

 

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por António Madeira às 12:11


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